Renata Vittorato
Conheci a Renata no último Programa Intensivo do ReVida,
cujo grupo eu integrava como trainee como parte do processo de
preparação para me juntar à equipe de terapeutas. Ela logo se destacou. Bonita,
jovem, usando uma peruca longa e loura (conforme era seu cabelo antes da
químio).
Renata teve câncer de mama, fez uma mastectomia parcial
com reconstrução e está em químio.
O câncer a lançou num projeto individual pelo qual ela se
propõe a facilitar o processo de enfrentamento da doença por outras pessoas. O
projeto é uma página no Facebook chamada “O câncer com leveza”.
A seguir ela conta parte de sua experiência. Leiam com carinho.
Cristina.
Cristina.
Renata, 37 anos, casada. Mulher cheia
de vida e de sonhos. O maior deles é ser mãe. Moro em Embu-Guaçu, mas estou
vivendo em São Paulo durante o tratamento. Sou estilista,
zootecnista e produtora de eventos, mas não trabalho desde uma cirurgia na
coluna. Tive câncer de mama e estou em tratamento quimioterápico.
DIAGNÓSTICO
Carcinoma ductal invasivo grau 3, triplamente
negativo: um tumor maligno, agressivo, sem receptores de proteína – o HER2. Os
linfonodos não tinham sido atingidos e os hormônios não estavam alimentando o
tumor.
O diagnóstico final veio logo após o
Carnaval de 2013, depois de fazer os exames e a biópsia, mas eu já havia
percebido em meados de novembro de 2012 ao fazer autoexame – que recomendo que
todas as mulheres, de todas as idades, façam uma vez ao mês. Fui levando essa
fase numa boa, com calma, sempre otimista e tranquilizando a família. Se eu
tivesse algo, teria de enfrentar, fazer o quê…
Pelo tamanho do nódulo eu já sabia que de uma cirurgia não
escaparia.
Contudo, a experiência da biópsia não foi o
que eu esperava. Eu sabia que era um exame chato e dolorido e estava ansiosa. O
episódio foi revelador nos dois sentidos – do diagnóstico e do quanto eu estava com medo.
Na verdade, o exame começou tranquilo. Brinquei
com a médica e fiz mil perguntas. Acabou sem intercorrências, mas quando iam
fazer o curativo, meu corpo adormeceu. Não sentia minhas mãos e só conseguia
dizer que estava passando mal, que chamassem alguém… Lembro de olhar fixo para
a porta da sala, deitada na maca. E agora? Estou morrendo! Tive uma
crise clínica de pânico, a qual eu trato há 20 anos. Chamaram os médicos, começaram
a me medicar e examinar. Mas quando minha mãe chegou e me abraçou, consegui
chorar e tudo passou… tinha que colocar para fora o estresse. Ou meu
subconsciente me sabotou ou eu estava o tempo todo me enganando… há uma linha
tênue entre o céu e o inferno, mas segui acreditando no melhor, não no pior.
Mas
quando veio a confirmação… aí a história foi outra…
Apesar de ser positiva, eu não estava
preparada para isso. Talvez não acreditasse que pudesse acontecer comigo ou com
alguém da minha família. Na verdade, sou o primeiro caso.
Quando recebi a notícia, meu corpo
entorpeceu e um vazio tomou conta do meu cérebro. Tive a sensação de estar
flutuando. Veio uma imensa enxaqueca. Então vieram os pensamentos: Ferrou…
vou morrer! E agora? Vou ficar careca, vou morrer de tanto passar mal… Chorei
muito.
Eu estava com o meu marido quando
soube do diagnóstico. Recebi um telefonema da minha irmã e achei que fosse
brincadeira dela… Entramos em choque. Meu marido se sentou no chão com as mãos
na cabeça, mas mesmo cansado me colocou no carro, tarde da noite, e dirigiu até
a casa dos meus pais. Todos nós juntos decidimos o que fazer, a que médicos eu iria…
E seria de imediato, sem perder tempo.
Fui ao mesmo médico que tratou minha
prima (ela também é minha ginecologista) há 20 anos. Era um dos melhores, o
mais caro, mas estávamos correndo contra o tempo. Nessas horas não pensamos nas
pessoas que passam pelo SUS, nem na fome dos pobres. Não pensei em nada, a não
ser em me salvar.
Enquanto não conversei com os médicos
– o mastologista e o oncologista – vivi no sopro, com um nó na garganta, como
se tivesse levado um soco no estômago.
Resolvi que faria tudo que eles me mandassem
fazer. Já que era privilegiada, tiraria proveito disso sem culpa.
CIRURGIA
E TRATAMENTO
A cirurgia foi uma quadrantectomia no
seio esquerdo e reconstrução, que acho que deve ser feita na mesma anestesia. Também
coloquei um cateter para facilitar as aplicações por ele, pois toda semana é
preciso tirar sangue, as medicações são fortíssimas, capazes de agredir a pele e
as veias. O organismo vai deprimindo…
Acabei o ciclo de quatro
quimioterapias vermelhas, que dizem ser as mais pesadas. Estou carequinha, todinha.
A imunidade cai, por isso todo cuidado é pouco. Ainda estou no lucro porque não
tive nenhuma febre e nem precisei ir ao pronto socorro.
Estou entrando no ciclo de doze químios
brancas. Dizem que essas derrubam você no chão, mas há bem menos enjoos. Vamos
ver… A primeira deveria ter sido feita no dia 10 de julho, mas senti muito os
efeitos das medicações e resolveram adiar. Sentia calafrios e dores no
corpo.
O
EMOCIONAL
Acredito que não existe um critério
único para desenvolver o câncer. Eu diria que meu caso foi resultado de muitas
coisas, mas principalmente do emocional. Eu já vinha de vários estresses, físicos
e emocionais. Em 2003 perdi um bebê de outro relacionamento. Em 2006 começou a
degeneração da minha coluna por causa de exercícios e esportes. A doença me causou
anos de dores; passei por hospitais, tomei remédios fortes, parei de trabalhar
e fui submetida a uma cirurgia em 2010, que deixou sequelas. Foram três 3 anos
em reabilitações, dietas, exercícios, fisioterapias, terapias para recobrar o
movimento das pernas. Também tive um grande aumento de peso: dos 62 kg
originais passei a 85 kg em apenas dois meses – e tudo isso no ano em que me casaria.
Eu precisava entrar no vestido e usar
salto alto. Foi uma busca estressante e, muitas vezes, frustrante. Além disso,
tinha a vontade de ser mãe: foram 5 anos de tentativas que me consumiam, me
machucavam.
Em outubro de 2012, estava
conseguindo perder peso, treinar melhor, cumprir a dieta, mas quase morri. Desidratei
muito e tive uma hipotassemia (queda de potássio), que pode ser fatal. Saí do
hospital estabilizada, mas frustrada…
Eu fazia terapia havia alguns anos e
ainda estávamos trabalhando toda essa minha ansiedade. Decidi que tudo seria
diferente em 2013, que iria viajar, descansar, comer direito, respeitar meu
corpo. Como meu marido e eu ainda não estávamos prontos para sermos pais,
decidi fazer a coleta dos óvulos para que tivéssemos essa possibilidade no
futuro (eu já tinha 37 anos). Deixaria as coisas acontecerem. Já que não estava
trabalhando, iria cuidar de verdade da minha vida, sem cobranças, sem arrogância,
sem perfeccionismo, sem culpa.
É tudo surreal – ainda é! – e
acontece simultaneamente, em alta velocidade. Quando você vê, já foi… e não tem
conversa. É tudo planejado. Pode haver intercorrências, mas há um protocolo a
seguir.
FAMÍLIA,
MARIDO, AMIGOS – E FILHOS…
Acredito que o câncer mexeu com todos
da família, não só comigo. Minha mãe sofre muito, diz-se traída por Deus. Diz que
esperava que acontecesse com ela. Meu pai também sofreu, mas se voltou para o
trabalho. Ficou uma semana sem me olhar direito. Eles não queriam me ver careca.
Comprei uma prótese muito parecida com meu cabelo. Meu pai dizia: NÃO QUERO VER
FILME DE TERROR AQUI EM CASA! Minha mãe não gosta da careca, porque a associa
com a doença, mas meu pai, quando a viu, disse que eu estava parecendo minha
sobrinha, e a beijou.
Minha avó é a pessoa para quem sempre
contei tudo. Ela é minha referência, meu anjo na terra; é religiosa e diz ter
ficado chateada com Deus. Ela também é parceira e veio ficar comigo quando
minha mãe teve que viajar.
Sei que minha irmã chora escondido, mas
é durona, me apoia, me leva aonde tenho de ir. Ela faz tudo que eu preciso.
Todos fazem.
As amigas são sensacionais, sem piedade…
Essas são as verdadeiras amigas.
Todas as vezes em que fiquei
internada, meu marido dormiu no sofá de anão (rs). Estamos passando a semana
separados, mas ele vem às quintas-feiras para irmos ao Centro Grupo Socorrista,
onde rezamos (esse é um lugar de cura). Meu marido me apoia. Nunca ouvi um não
dele. Quando fui ao ReVida, em São Francisco Xavier, ele me levou em plena
segunda-feira, e ainda confiando que eu ficaria bem. Ele é meu parceiro. Sinto
meu casamento mais real, solidificado.
A
questão da maternidade é polêmica, controversa, dói, magoa, é
pior que o câncer. Com o câncer eu chorei de medo; com o fato de não ser mãe choro
de tristeza, sinto um vazio. Eu quero muito minha família – eu, meu marido e
filhos – e tem sido difícil lidar com a incerteza disso tudo. O câncer me
fortalece, me motiva a continuar viva. São duas coisas muito distintas… Apesar
de precisar passar pelo tratamento para poder voltar a tentar engravidar, eu
acredito que ele vai passar, acredito na cura… mas ser mãe é uma sombra, pois com
o fim do câncer vêm todos aqueles processos, exames, procedimentos exaustivos e
doloridos. O câncer apareceu agora e as expectativas são positivas. Eu tenho lido e pesquisado muito sobre o assunto. Congelei
dois embriões. Dizem que
devo esperar de três a
cinco anos para implantá-los, mas não acredito nessa possibilidade. Vai
ser na hora que tiver de ser. Com a recomendação
de todos os especialistas envolvidos no meu tratamento, fez-se o procedimento
de coleta dos óvulos e sua fertilização. Isso também só ocorreu porque o tumor
não era alimentado por hormônio, pois o estímulo dos óvulos é feito com uma
bomba de hormônios. Não seria impossível, mas haveria risco de aparecer mais
tumores. Uma coisa importante: não é certeza que esses dois embriões vingarão; as
chances são de 40% (sendo otimista – tenho que ser), mas isso me assombra, pois
tenho que pensar em todas as hipóteses. Com a químio e a rádio, posso não
ovular mais, e essas seriam minhas duas únicas chances de ter um filho legítimo.
Mas posso usar um embrião doado, posso adotar.
No
começo acreditei que eu já tivesse esses dois filhos, mas minha médica foi muito
racional e disse que poderia não dar certo, que as chances eram poucas. Foi desanimador. Ela poderia ter abordado a
questão de outra maneira, mas foi realista e esse realismo todo me assustou. Apesar
de eu achar a porcentagem alta, ela parecia não acreditar… a ponto de eu querer
procurar um especialista em gravidez/câncer. Eu acredito que posso me curar e
que posso engravidar. Quem é ela pra me dizer que não? Riscos eu corro todos os
dias, até dormindo… A vida toda é um risco! Por que não arriscar pelos nossos
sonhos?
Pensamos em adotar, e não tenho
preconceitos. Aceito crianças de até 2 anos, mas não decido isso sozinha. Quero
entrar com os papéis, mas um dos documentos é um atestado de saúde, então
também temos que esperar eu ficar bem. Preciso de um laudo de alta, e isso só
vai acontecer no ano que vem. Mas as mulheres que engravidaram ou fizeram o
tratamento grávidas me inspiram. Tenho que ter algo pelo que acordar amanhã… um
motivo para continuar… E esse é um sonho. Eu casei com o homem da minha vida, sou
filha, irmã, neta, tia, sobrinha… Falta ser mãe!
FACEBOOK
Depois que conversei com os médicos, que
saí um pouco da ignorância, mas ainda sentindo um peso no peito, fui até minha
página no Facebook e disse: “E HOJE COMEÇA A MINHA LUTA CONTRA O CÂNCER DE
MAMA!”
Eu me libertei… Decidi que iria
passar da melhor maneira possível e que todo o mundo iria saber. Quem quisesse
me acompanharia.
Logo veio a ideia da fazer uma
Fanpage para alertar, mostrar e falar sobre como eu estava vivendo o câncer. Comecei
a descobrir em mim uma pessoa forte e determinada e que aos poucos ia ajudando
mulheres que sentiam as mesmas coisas. Já não me sentia tão sozinha… Essa
página me ajuda, me orgulha, emociona… Fiz amigas, encontrei oportunidades. Quem
quiser conhecer, procure “O câncer com leveza”.
O câncer machuca, é malvado, mas me
mostrou um lado da vida que eu teimava em não ver. Muitas coisas foram ditas, decisões
difíceis foram tomadas. Eu me voltei para a espiritualidade abandonada. A fé me
fortalece mesmo quando minha imunidade cai ou quando passo mal pelos efeitos
colaterais das medicações.
DESAFIOS
Meu maior desafio sou EU mesma. Se
estiver desanimada, deprimida, dá tudo errado. Quando estou bem, vou até o
limite dos médicos… fiquei triste por não ter terminado a aplicação da primeira
branca, mas disseram que fiquei muito mal e era arriscado continuar (eu mesma
me lembro pouco). Fui até onde deu… Paciência também é um desafio, sou ansiosa.
Então, mais uma vez, o controle de esperar, de aceitar, de me respeitar vem
em primeiro lugar. E preciso de paciência também para retomar minha vida… meus
sonhos… ser mãe!
MEDOS
Meu maior medo hoje é a recidiva, é
não saber o que não está sob meu controle. Mas acredito que esse é o medo de
todos que passam por isso. Mas o medo não me impede de continuar a viver, mesmo
que nessa etapa eu tenha de ficar mais em casa com a família, mesmo estando mais
cansada… Tenho feito projetos voltados para ajudar outras pessoas, então vivo o
momento, faço que tenho vontade. Meu maior prazo é amanhã.
AS
PRÓXIMAS ETAPAS
Faremos uma nova tentativa para
iniciar o ciclo das químios brancas. Depois serão de 30 a 40 sessões de
radioterapia e exames de controle por até cinco anos. Eu já digo que farei pelo
resto da vida.
Estou para fazer o exame de mutação
genética para me proteger e proteger minha família. Nesse exame eles fazem
o mapeamento dos genes, analisam um por um. A identificação de genes mutantes
para o câncer indica risco para meus filhos, para minha irmã e minha mãe.
A
VIDA HOJE
Hoje, mais que nunca, quero viver! Quero
estar junto dos que amo, mesmo sem falar uma palavra. Basta a presença.
Vejo a vida mais com mais
objetividade e clareza, mas com leveza, sem perder tempo com o que não é
realmente importante. E o que importa, importa muito mais agora. Brigo pela
minha verdade e não aceito NÃOS, prazos. Eu mando em minha vida. Eu é que sei o
que sinto, o que quero e quando. Isso é muito importante, pois é cruel uma
pessoa dar prazos para alguém vivendo um câncer.
Eu me acho mais linda que nunca. Autoestima
ajuda e faz bem. Tento ser positiva e tirar das coisas ruins, dos dias ruins, uma
chance de me conhecer melhor, conhecer meu limite, minha dor, minha tristeza.
Vejo que posso ajudar. No começo não
sabia como, mas as coisas fluíram e a vida foi se encaixando. Os amigos de
verdade ficaram. Vi que era mais forte do que as mulheres em quem me espelhava (minha
mãe e minha avó). Entendi que meu marido realmente me ama. A prova maior de
amor é que eu continuo a mesma para eles. Eu é que não me conhecia. Entendi que
ser gorda ou magra é indiferente. Compreendi que a vida é muito mais simples do
que imaginava, e que o câncer não é um bicho de sete cabeças… Talvez de duas,
vai…


