25 maio 2015

Câncer e carne: qual a relação entre ambos?

Já de início, precisamos esclarecer que o câncer é uma doença multifatorial, isto é, inúmeras situações podem detonar seu surgimento. Portanto, uma dieta ou outra não necessariamente vai causar um câncer ou proteger completamente contra ele, mas é indispensável se quisermos evitar o risco desta doença.

O câncer pode aparecer em virtude de propensão genética (embora esta causa venha ganhando cada vez menos peso), situações do ambiente (poluição, radiação, determinados produtos químicos no entorno), hábitos (fumo, alimentação, sedentarismo), traumas emocionais e há pesquisas sérias que associam o aparecimento da doença a determinadas características de personalidade.

Mas vamos, aqui, focar na carne, já que muito se fala que ela é uma importante causadora do câncer.
Ainda não há pesquisas definitivas que garantam a relação entre a ingestão de carne (principalmente a vermelha) e o câncer, porém as evidências são significativas para que levemos a informação a sério e repensemos nossa alimentação.
Em geral, o consumo de carne está associado a pelo menos três tipos de câncer: de intestino, de fígado e de próstata. (Já a ingestão de tomate aparentemente protege contra o aparecimento do câncer de próstata e a ingestão de quantidades diárias satisfatórias de vitamina D e cálcio também podem ser fatores protetores contra o aparecimento do câncer de intestino.)
Vamos a algumas pesquisas.
Um estudo recente desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Estados Unidos, mostrou que determinadas formas de uma substância denominada ácido siálico – o ácido N-glicolilneuramínico (Neu5Gc) – pode provocar um processo inflamatório que predisposição ao câncer. O Neu5Gc não está presente no corpo humano, mas, sim, na carne. Esta substância, depois de metabolizada, permanece nos tecidos humanos, gerando a produção de anticorpos em circulação. A interação entre os antígenos circulantes e os anticorpos anti-Neu5Gc pode incitar processos inflamatórios, levar à produção de carcinomas (preponderantemente no fígado) e estimular seu crescimento. Portanto, os pesquisadores entendem que esta é uma explicação para a associação entre o consumo de carne vermelha e o possível desenvolvimento de câncer (SBOC, 2015).
Mas o consumo de carne vermelha não está associado somente ao câncer de fígado. A ingestão de carne vermelha tem sido vinculada à predisposição ao desenvolvimento de certos tipos de neoplasia, entre elas os tumores de intestino. As nitrosaminas, que são compostos produzidos a partir de nitritos e aminas, são conhecidas como agentes carcinogênicos e estão presentes, em diferentes concentrações, em vários gêneros alimentícios, como peixes, frutos do mar, cervejas, queijos e também em carnes vermelhas (produtos de origem animal), e em outros produtos presentes no ambiente, como o tabaco, pesticidas, borracha e cosméticos.
Mas não é somente a carne, em si, a responsável pela predisposição ao câncer. O modo como ela é preparada também tem importância, porque influi na concentração desses agentes carcinogênicos. Eles estão mais presentes nas carnes fritas, defumadas, curadas e nos churrascos preparados com carvão (GRUPO COI, 2015).
Os cientistas do Centro de Investigação Prospectiva sobre o Câncer e a Nutrição da Europa (Epic, na sigla em inglês), observaram os hábitos alimentares de mais de 500 mil pessoas na Europa ao longo de dez anos e concluíram que as que comem mais de duas porções de 80 gramas de carne por dia correm 35% mais riscos de desenvolver a doença do que as que comem apenas uma (ou menos de uma) porção por semana. Eles perceberam que os riscos de desenvolver câncer no intestino são menores entre as pessoas que ingerem muitas fibras por meio de alimentos como verduras, frutas e cereais (BBC, 2015).
Segundo David Servan-Schreiber (2008), ainda há outro fator que associa a carne e derivados de animais (leite e ovos) ao desenvolvimento de câncer: o desequilíbrio entre os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6. Estes ácidos devem estar presentes em nosso organismo de forma equilibrada, em quantidades muito próximas. Porém os novos hábitos de criação de animais - fora do pasto e alimentados à base de soja, trigo e milho, além dos hormônios a que são submetidos para engordarem mais rapidamente - criaram um desequilíbrio entre esses ácidos, aumentando muito o ômega-6, que facilita o armazenamento de gorduras, a rigidez celular, a coagulação e a inflamação.
Portanto, cientistas do mundo todo e a própria ONU chegam a uma conclusão quase unanime: quando se trata de prevenção do câncer, deve-se optar por uma alimentação saudável e variada, dando preferência a alimentos vegetais orgânicos, cereais integrais, sementes e grãos e evitando os produtos industrializados, as carnes (principalmente as gordas) e leite e derivados.  



Referências:

BBC Brasil.  Carne vermelha aumenta o risco de câncer de intestino, diz estudo. Folha de S. Paulo, 16 jun. 2015. Disponível em:http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u43483.shtml. Acesso em 24 mai. 2015.
GRUPO COI. Carne vermelha causa câncer? s.d. Disponível em: http://www.grupocoi.com.br/carne-vermelha-causa-cancer/#.VWInA0ZvTAQ. Acesso em: 24 mai. 2015.
SBOC - Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Relação entre câncer e consumo de carne. 21 jan. 2015. Disponível em: http://www.sboc.org.br/relacao-entre-cancer-e-o-consumo-de-carne/. Acesso em: 24 mai. 2015.

SERVAN-SCHREIBER, D. Anticâncer: prevenir e vencer usando nossas defesas naturais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

07 maio 2015


A doença de Alzheimer foi revertida pela primeira vez no Canadá e com sucesso. Uma equipe de investigadores canadenses, da Universidade de Toronto, liderada por Andres Lozano, usou uma técnica de estimulação cerebral profunda, diretamente no cérebro de seis pacientes, conseguindo travar a doença. O estudo vem publicado na «Annals of Neurology».

 
 
Em dois destes pacientes, a deterioração da área do cérebro associada à memória não só parou de encolher como voltou a crescer. Nos outros quatro, o processo de deterioração parou por completo.
Nos portadores de Alzheimer, a região do hipocampo é uma das primeiras a encolher. O centro de memória funciona nessa área cerebral, convertendo as memórias de curto prazo em memórias de longo prazo. Sendo assim, a degradação do hipocampo revela alguns dos primeiros sintomas da doença, como a perda de memória e a desorientação.

Imagens cerebrais revelam que o lobo temporal, onde está o hipocampo e o cingulado posterior, usam menos glicose do que o normal, sugerindo que estão desligadas e ambas têm um papel importante na memória.

Para tentar reverter esse quadro degenerativo, Lozano e sua equipa recorreram à estimulação cerebral – enviar impulsos elétricos para o cérebro através de eletrodos implantados.
O grupo instalou os dispositivos perto do fórnix – um aglomerado de neurônios que enviam sinais para o hipocampo – dos pacientes diagnosticados com Alzheimer há pelo menos um ano. Os investigadores aplicaram pequenos impulsos elétricos 130 vezes por segundo.
Testes realizados um ano depois mostram que a redução da glicose foi revertida nas seis pessoas. Esta descoberta pode levar a novos caminhos para tratamentos de Alzheimer, uma vez que é a primeira vez que foi revertida.
Os cientistas admitem, no entanto, que a técnica ainda não é conclusiva e que necessita de mais investigação. A equipa vai agora iniciar um novo teste que envolvem 50 pessoas.
Mal de Alzheimer

Existem vários tipos de demência, em que há decréscimo das capacidades de funcionalidade, comprometimento das funções cognitivas – atenção, percepção, memória, raciocínio, pensamento, linguagem etc. – e da capacidade físico-espacial.
O Mal ou Doença de Alzheimer é a principal causa de demência que causa problemas de memória, pensamento e comportamento. A doença é responsável por 50% a 80% dos casos de demência no mundo.

O Alzheimer é degenerativo, mais comum após os 65 anos de idade e caracteriza-se pela perda progressiva de células neurais. A médica Sonia Brucki, do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, explica que há um acúmulo anômalo de algumas proteínas no tecido cerebral que provoca a morte dos neurônios.

“Até agora se acredita que isso seja multifatorial, causado por componente genético, fatores externos (baixa escolaridade, por exemplo), alterações vasculares (hipertensão, diabetes etc.), traumatismos cranianos com perda de consciência, alterações nutricionais e depressão”, enumera. Outros problemas podem causar demências, por exemplo, déficit de vitaminas, doenças da tireoide, alterações renais, portanto doenças que podem ser evitadas.

Atualmente, não existe medicação disponível para evitar esse acúmulo de proteínas, mas há medicamentos que retardam a progressão do Alzheimer. Algumas medicações, fornecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), aumentam uma substância no cérebro que, em menor quantidade, traz alterações na memória.

Os sintomas geralmente são desenvolvidos lentamente e pioram com o tempo. Alguns pacientes conseguem ter uma redução progressiva da doença, mas outros não conseguem voltar à normalidade. Em casos mais graves, o paciente pode ter apatia, depressão, alucinação e pensamentos delirantes.
O médico neurologista Fábio Henrique de Gobbi Porto diz que o principal sintoma é a dificuldade de aprender coisas novas. O idoso não consegue se lembrar de fatos recentes como, por exemplo, o dia da semana. Tem também dificuldade para fazer contas.

Segundo ele, na fase inicial, o paciente pode ser lembrado de informações importantes e ter o suporte da família. Na fase moderada, tem uma dependência maior da família e, às vezes, existe mudança do comportamento. Na fase mais grave, tem dificuldade para realizar funções básicas, como urinar, dificuldade para engolir e até agressividade. A fase mais grave dura, em média, oito anos.

A família precisa ficar atenta a qualquer decréscimo de qualquer capacidade da pessoa, seja memória, dificuldade de realizar tarefas complexas, nomear coisas, problemas de linguagem. “Nem sempre começa com problemas de memória”, alerta Brucki.

Ainda não existe cura para o Mal de Alzheimer, mas alguns estudos testam medicações que poderiam estacionar a doença. De acordo com o neurologista Fábio Henrique de Gobbi Porto, já foi provado cientificamente que a escolaridade, principalmente na fase mais básica, é um fator protetor contra o Alzheimer.

Além disso, a prática de exercícios físicos e uma dieta saudável previnem a doença. “Algumas teorias dizem que a atividade física aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, aumenta a lavagem (retirada) da proteína do Alzheimer que se acumula no cérebro, além de melhorar o humor e a saúde em geral”, explica.

Fonte: MPortal