Já de início, precisamos esclarecer que o câncer é
uma doença multifatorial, isto é, inúmeras situações podem detonar seu
surgimento. Portanto, uma dieta ou outra não necessariamente vai causar um
câncer ou proteger completamente contra ele, mas é indispensável se quisermos
evitar o risco desta doença.
O câncer pode aparecer em virtude de propensão
genética (embora esta causa venha ganhando cada vez menos peso), situações do
ambiente (poluição, radiação, determinados produtos químicos no entorno),
hábitos (fumo, alimentação, sedentarismo), traumas emocionais e há pesquisas
sérias que associam o aparecimento da doença a determinadas características de
personalidade.
Mas vamos, aqui, focar na carne, já que muito se
fala que ela é uma importante causadora do câncer.
Ainda não há pesquisas definitivas que garantam a relação entre a ingestão de
carne (principalmente a vermelha) e o câncer, porém as evidências são significativas
para que levemos a informação a sério e repensemos nossa alimentação.
Em geral, o consumo de
carne está associado a pelo menos três tipos de câncer: de intestino, de fígado
e de próstata. (Já a ingestão de tomate aparentemente protege contra o
aparecimento do câncer de próstata e
a ingestão de quantidades diárias satisfatórias de vitamina D e cálcio também
podem ser fatores protetores contra o aparecimento do câncer de intestino.)
Vamos a algumas
pesquisas.
Um estudo recente
desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Estados Unidos,
mostrou que determinadas formas de uma substância denominada ácido siálico – o
ácido N-glicolilneuramínico (Neu5Gc) – pode provocar um processo inflamatório
que predisposição ao câncer. O Neu5Gc não está presente no corpo humano, mas,
sim, na carne. Esta substância, depois de metabolizada, permanece nos tecidos
humanos, gerando a produção de anticorpos em circulação. A interação entre os
antígenos circulantes e os anticorpos anti-Neu5Gc pode incitar processos
inflamatórios, levar à produção de carcinomas (preponderantemente no fígado) e
estimular seu crescimento. Portanto, os pesquisadores entendem que esta é uma
explicação para a associação entre o consumo de carne vermelha e o possível
desenvolvimento de câncer (SBOC, 2015).
Mas o consumo de carne
vermelha não está associado somente ao câncer de fígado. A ingestão de carne
vermelha tem sido vinculada à predisposição ao desenvolvimento de certos tipos
de neoplasia, entre elas os tumores de intestino. As nitrosaminas, que são compostos produzidos a partir de nitritos e
aminas, são conhecidas como agentes carcinogênicos e estão presentes, em
diferentes concentrações, em vários gêneros alimentícios, como peixes, frutos
do mar, cervejas, queijos e também em carnes vermelhas (produtos de origem
animal), e em outros produtos presentes no ambiente, como o tabaco, pesticidas,
borracha e cosméticos.
Mas não é somente a
carne, em si, a responsável pela predisposição ao câncer. O modo como ela é preparada
também tem importância, porque influi na concentração desses agentes
carcinogênicos. Eles estão mais presentes nas carnes fritas, defumadas, curadas
e nos churrascos preparados com carvão (GRUPO COI, 2015).
Os cientistas do Centro de Investigação Prospectiva sobre o Câncer e a Nutrição da
Europa (Epic, na sigla em inglês), observaram os hábitos alimentares de mais de
500 mil pessoas na Europa ao longo de dez anos e concluíram que as que comem
mais de duas porções de 80 gramas de carne por dia correm 35% mais riscos de
desenvolver a doença do que as que comem apenas uma (ou menos de uma) porção
por semana. Eles perceberam que os riscos de desenvolver câncer no intestino
são menores entre as pessoas que ingerem muitas fibras por meio de alimentos
como verduras, frutas e cereais (BBC, 2015).
Segundo
David Servan-Schreiber (2008), ainda há outro fator que associa a carne e
derivados de animais (leite e ovos) ao desenvolvimento de câncer: o
desequilíbrio entre os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6. Estes ácidos devem
estar presentes em nosso organismo de forma equilibrada, em quantidades muito
próximas. Porém os novos hábitos de criação de animais - fora do pasto e
alimentados à base de soja, trigo e milho, além dos hormônios a que são
submetidos para engordarem mais rapidamente - criaram um desequilíbrio entre
esses ácidos, aumentando muito o ômega-6, que facilita o armazenamento de
gorduras, a rigidez celular, a coagulação e a inflamação.
Portanto,
cientistas do mundo todo e a própria ONU chegam a uma conclusão quase unanime:
quando se trata de prevenção do câncer, deve-se optar por uma alimentação
saudável e variada, dando preferência a alimentos vegetais orgânicos, cereais
integrais, sementes e grãos e evitando os produtos industrializados, as carnes (principalmente
as gordas) e leite e derivados.
Referências:
BBC
Brasil. Carne vermelha aumenta o risco
de câncer de intestino, diz estudo. Folha
de S. Paulo, 16 jun. 2015. Disponível em:http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u43483.shtml. Acesso em 24 mai.
2015.
GRUPO
COI. Carne vermelha causa câncer? s.d. Disponível em: http://www.grupocoi.com.br/carne-vermelha-causa-cancer/#.VWInA0ZvTAQ.
Acesso em: 24 mai. 2015.
SBOC - Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Relação entre câncer
e consumo de carne. 21 jan. 2015. Disponível em: http://www.sboc.org.br/relacao-entre-cancer-e-o-consumo-de-carne/.
Acesso em: 24 mai. 2015.
SERVAN-SCHREIBER, D. Anticâncer: prevenir
e vencer usando nossas defesas naturais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

